segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fluxo-Floema


Eu queria tanto me encontrar, descobrir quem de fato eu sou. Eu mudo tanto. O que eu sou? Sou o que fui ontem? Ou aquilo que sou hoje? Talvez eu seja aquilo que serei amanhã, o que significa que de fato eu nunca fui. Talvez eu seja todos, talvez não seja ninguém. Quem sabe eu sou o amor que senti por ela ou o ódio que tenho de mim? A minha alma é tudo, é o leitor destas linhas. É a digestão de tudo e de todos que passaram pela minha vida. Sou Imperador e mendigo


Eu quero ser você leitor, mas você é tão diferente. Não quero ser diferente, eu tenho medo. Tenho medo de mudar (apesar disso acontecer o tempo todo), de não mais me reconhecer no espelho. Tenho medo de não ser mais eu. Eu tenho medo, acima de tudo, do seu julgamento. E se eu não for mais eu, sou alguém? Quem? Você? Não, já falei que não quero. Eu quero ser menos.


Eu quero ser... um rato, a vida do rato é tão mais tranquila. Andar por ai sendo rato... assustando os outros. O mundo me assusta tanto, agora eu quero dar o troco. Sujo como um rato, feio como um rato, miserável como um rato, pensando bem já não me falta muito. Não sendo somente rato, eu sou totalmente rato. Tão rato como ela é minha, tão rato como a crença que tenho em Deus.


Talvez Deus seja um rato, um rato que eu matei a livradas. Um rato que matei dentro de mim por inanição de fé. Me apavora ter um rato morto barbudo, peludo e dilacerado na minha frente... morto. Quanta heresia, Deus... Heresia...? Se Deus não tem cara, eu posso imaginá-lo como eu quiser. Pra mim, Deus é um rato de longas barbas brancas e ponto. E eu sou a imagem e semelhança de Deus.


Logo eu que me julgava pronto pra Deus, não estou. Ninguém está. Não a transcendência capaz de alcançar o inexistente nem a minha imagem de Deus rato. Eu matei Deus matando a mim mesmo. Ou será que inventei Deus? Será que eu me inventei? Será que, por ser covarde, inventei a morte? Não, isso seria demais para um rato (será que os ratos criam os seus próprios deuses?).


O amor que senti por ela é um amor rato. Amo a costela de um rato. Amo um sonho de rato: um queijo qualquer, por mais improvável que pareça. Sonhos são improváveis, por isso são sonhos e não realidade. Todo mundo sonha. Alguns querem queijo, outros império. Eu quero o universo. Quero ser o Deus rato deste universo rato. Eu a quero. Ela que é tão linda que me faz sentir humano, que faz Deus se sentir DEUS, O CRIADOR. Tão linda que apenas o silêncio pode homenageá-la.


Amo a figura de alguem que é ela ou a figura que eu acredito ser ela, mas que não é. O que pode ser mais emocionante do que se descobrir rato? Descobrir que se ama a uma rata? Vê-la passar rata e não poder gritar? Estar a passos da vida que julgo perfeita e saber que simplesmente eu posso nunca alcançá-la?



Para a vida perfeita, talvez tenha que matar um rato por dia ou um DEUS por dia. Talvez eu tenha que cometer um sacrifício por dia e isso resulte na minha morte. Talvez eu tenha que conviver com o meu caos interior. Talvez eu ainda tenha que viver com o caos dos outros. Talvez esse seja meu papel na sociedade (Eu tenho um papel na sociedade?). E qual seria o papel dos ratos na sociedade? Talvez ser rato seja tão complexo quanto ser humano, talvez não.


Quer saber a verdade? Eu tenho nojo de rato.


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