segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Nossa Última Chance


"Vocês não estão vendo que esta é a minha última chance?", esbraveja o presidenciável José Serra em uma reunião com aliados.

Estava nervoso, não teria como não estar. Estava ele diante da sua última chance. Durante toda a sua carreira política ele desejou, mais que tudo, ocupar aquela cadeira.


Derrotado em 2002 por Lula, sobrou a ele a dura tarefa de torcer contra o seu país. O país pelo qual ele tanto lutou pela democratização. O Governo Lula tinha que ser um fracasso, ele dependia disso. Durante quatro anos, no entanto, ele assistiu ao sucesso de Lula e ao total desfalecimento de suas esperanças. Mas que isso, Lula se tornara um mito e contra mitos não há oposição. Em 2006, diante do mito Lula ele optou por não concorrer a presidência, ele sabia que não tinha chances, ninguém tinha. A melhor coisa a fazer era esperar mais quatro anos. E foi isso que ele fez, esperou e viu nestes quatro anos seguintes Lula se tornar um mito ainda maior. Despertando um de seus piores sentimentos: a inveja. Mas isso não tinha grande importância, Lula não poderia candidatar-se novamente, agora era a hora e a vez dele. Na situação, uma candidata praticamente desconhecida, com um passado obscuro, sem experiência e praticamente nenhum traquejo político. Ele certamente era o melhor para o Brasil, disso não tinha dúvidas.


Diante dos fatos, ele não conseguia entender os seu desempenho nas pesquisas. Como podem preferir a ela? Certamente esse Lula é mais popular do que pensavamos. Era com pesar que ele sentia a presidência escapando pelas mãos. Mas ele tinha que fazer algo, não podia se entregar. Desistir não é o esperado de homens como ele, lutaria até os últimos segundos pelo seu sonho, nem que pra isso tivesse que descer ao inferno. E foi isso que fez, usando todo apoio da mídia, começou a caluniar a adversária guerrilheira. Teve que ajoelhar-se diante dos setores mais reacionários da Igreja. Meu Deus, como ele sentia nojo de tudo aquilo, mas com um Maquiavel em uma mão e a outra tampando o nariz, ele caminhou em meio a toda aquela podridão rumo à vitória que, mais uma vez, não veio.


E agora, ele amargava a derrota. Mais que uma simples derrota, ele amargava o fim do seu sonho. O fim do desejo de ver seu nome retratado nos livros de história. Agora, se muito, estes lhe garantirão uma ou duas linhas. A história não tolera perdedores, e ele sabe disso.



José Serra, guardado as devidas proporções, eu me identifico com você. Eu também estou diante da minha última chance. E considero que somos apenas meras sombras de sucesso, que assim sendo, não são nada além de fracasso. Somos meros nomes escritos no livro das frustrações como escreveu Drummond no seu poema chamado Elegia a um Tucano Morto:


"Eu te registro, simplesmente, no caderno de frustrações deste mundo pois para isto vieste: para a inutilidade de nascer."


Aceite Serra: até ontem ela era sua adversária, hoje é a sua Presidente.





3 comentários:

  1. Parabéns! O texto está muito bem escrito, as comparações e o contexto utilizado foram incríveis.

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  2. Buñuel, se depender da sua redação para conseguir atingir seu grande sonho, creio que a VITÓRIA e o SUCESSO naquilo que você chama de "última chance" será invitável!
    Muito bem escrito o texto! Parabéns!

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  3. Fantástico o "achado" do Drummond =)

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