terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Tempo, tempo, tempo





Não há tempo. É tudo muito curto, inclusive o tempo. O tempo do pensamento é breve como a eternidade. Resta tão pouco da eternidade em mim, eu só tenho o agora.

Eu só tenho hoje para dizer tudo que quero.Todas as minhas angústias e inseguranças. Só tenho hoje para despir a minha casca de forte. Preciso me mostrar para o mundo, mas resta tão pouco de mim. Talvez eu já tenha perdido aquilo que quero para os braços de outro. Talvez não dê mais tempo de recuperar.


Tempo: o imensurável desejo de todos nos.


Tempo: forma de me atrelar ao passado que eu não consigo idealizar. É engraçado como as pessoas fazem isso o tempo todo, recordam-se do passado como se ele tivesse sido grandioso. Tomando para si realizações e situações que nunca aconteceram.


Tenho a imaginação curta, o meu passado é só o meu passado. Não é, infelizmente, dos mais emocionantes. Alguns momentos bons, sem dúvida, que fazem a minha vida parecer de outro. Aquele dia, aquela festa, aquela mulher. Não parecia eu, mas era. Eu já me perdi no que eu quase nunca fui. Já não resta nada a fazer.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mr. K vai ao Hospício


Preso em um cubículo. As paredes sem janelas e tudo que há no quarto é uma cama e um guarda-roupa de duas portas. O chão levemente empoeirado,  tudo cheira a mofo. Maldição, eles acham que estou louco. Eu acho que estou louco. Todo dia me dão remédios para me animar, mas não há nada para fazer por aqui, então eu continuo desanimado. Parece que estou no fundo escuro de uma caverna e a cada dia que passa a luz que me indica a saída fica cada vez mais fraca, e todos os dias eu penso no trabalho que vou ter para voltar e então eu me sento. Eu me sento na beirada da cama e o chão continua empoeirado, eu abro o guarda-roupa vazio e o chão continua empoeirado. A única coisa que cresce por aqui é o mofo, e até mesmo ele, às vezes, parece triste. Eu me levanto e pego meu remédio, mas tudo parece igual. As pessoas me fazem perguntas para as quais eu não tenho respostas. Durante toda minha vida procurei aprender as coisas e não ter resposta para algo realmente me incomoda. Eu me reviro no colchão e converso com o mofo mas nós não chegamos a conclusão nenhuma. O mofo diz:

- O mais importante é crescer rapaz!
- Eu acho que já estou muito velho para crescer...
- Bom, comer também é importante...

O mofo não é uma boa companhia, ele só fica ali, se aproveitando da minha falta de janelas para crescer e comer.

- Por que você faz isso?

Silêncio.
Bom, talvez ele também não tenha uma resposta. Os dias então se arrastam, o mofo não fala mais comigo e o guarda-roupas continua vazio. Já estou de saco cheio desse lugar. Quando me perguntam eu respondo o que eles querem e pronto, em dois dias estou liberado.
Aqui fora tudo é estranho. As pessoas são estranhas, o mundo é estranho. Não sei se fico perdido nesse caos ou se volto para meu cubículo alegando ser Napoleão.

- Um cigarro e uma cerveja.

Pelo menos ainda posso tentar me matar. Não, não estou falando em me jogar da ponte ou dar um tiro na cabeça. Isso é coisa de desesperados que viram muito mais do que um homem pode ver. Eu só vi um pouco e não estou com pressa de morrer, eu tento me matar aos poucos. Eu me puno por não conseguir viver da forma que se deve. Eu bebo para ter momentos de alegria e esquecimento e o cigarro me acalma. Suicídio. Suicídio à prazo. Só para os que viram pouco, ou os que ainda tem um resto de sanidade. Se é que se pode chamar isso de algo são.
Por sorte, sempre tem alguém querendo conversar num bar:

- Ei! Tudo bem?
- Ahan...
- Você é daqui?
- Não, eu sou Napoleão...
- Hahahah, você é engraçado cara.
- Você não faz idéia o quanto...

Está tão bêbado e perdido quanto eu. Diz que a esposa o deixou por outro e que o patrão está ameaçando despedi-lo. Oh merda, as pessoas só querem ser ouvidas. E então eu ouço. Não preciso dar conselhos, porque as pessoas já sabem o que querem ouvir e elas mesmas dizem isso, você só tem que concordar.

- Então, vou trabalhar com esse meu primo e mandar meu patrão para o inferno, afinal de contas o importante é ter um dinheirinho ali todo o mês para gastar no bar não é mesmo? E daí que é só metade do que ganho? É só comer um pouco menos, to precisando de uma dieta mesmo...

Suicidas à prazo não desistem do seu suicídio por nada nesse mundo, é o que os guia, é o que os faz levantar da cama todo dia pela manhã para trabalhar. É como se deitar numa cama de espinhos durante o dia para comprar um analgésico de noite.

- Mas e você? O que está fazendo aqui?
- Tô tentando me matar...
- Hahahah, você é louco cara!
- É, eu sei...
- Mas sério, qual a sua história?
- Um dia eu acordei e me perguntei porque eu ia me levantar.
- E...
- Bom, eu não encontrei um bom motivo.
- Ser despedido não é um bom motivo?
- Não
- Pagar as contas?
- Não. Beber?
- Beber não é um motivo para se levantar, é um motivo para continuar vivo.
- E a sua esposa?
- Eu daria minha vida por aquela desgraçada.
- E o que ela faria com sua vida?
- Sei lá porra! Me colocaria pra trabalhar pra pagar os luxos dela! Hahahah.
- Um grande amor é um bom motivo para se levantar pela manhã...
- É sim.
- Mas sabe, não encontrei um bom motivo para EU me levantar pela manhã, na verdade eu senti que já não tinha importância para mim mesmo.
- Sei como é, sem ela agora estou perdido. Não consigo fazer mais nada porque nunca pensei em mim eu acho...
- Pois é, o problema é que não aceito que alguém faça isso por mim, o que seria o normal, e então eu virei Napoleão.
- E como é isso?
- É chato, no começo você quer crescer e comer como o mofo, mas daí você percebe que nada muda e que você está sem janelas...
- Sem janelas não é bom...
- Sim sim, mas ainda fica pior, tem um chão que está sempre empoeirado e não há nada para se fazer.
- Então porque você não limpou o chão?
- Para que eu limparia?
- Por que você não estava fazendo nada?
- E isso é motivo para se fazer alguma coisa?

Silêncio.
Bêbados de mais. Filosofia barata de bar.
Começo a caminhar para casa, terei que encarar meus familiares depois desse tempo todo. Me envergonho de ter virado Napoleão, mas já estava sem forças, ainda estou. Mas acho que agüento. Eu tenho que agüentar.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fluxo-Floema


Eu queria tanto me encontrar, descobrir quem de fato eu sou. Eu mudo tanto. O que eu sou? Sou o que fui ontem? Ou aquilo que sou hoje? Talvez eu seja aquilo que serei amanhã, o que significa que de fato eu nunca fui. Talvez eu seja todos, talvez não seja ninguém. Quem sabe eu sou o amor que senti por ela ou o ódio que tenho de mim? A minha alma é tudo, é o leitor destas linhas. É a digestão de tudo e de todos que passaram pela minha vida. Sou Imperador e mendigo


Eu quero ser você leitor, mas você é tão diferente. Não quero ser diferente, eu tenho medo. Tenho medo de mudar (apesar disso acontecer o tempo todo), de não mais me reconhecer no espelho. Tenho medo de não ser mais eu. Eu tenho medo, acima de tudo, do seu julgamento. E se eu não for mais eu, sou alguém? Quem? Você? Não, já falei que não quero. Eu quero ser menos.


Eu quero ser... um rato, a vida do rato é tão mais tranquila. Andar por ai sendo rato... assustando os outros. O mundo me assusta tanto, agora eu quero dar o troco. Sujo como um rato, feio como um rato, miserável como um rato, pensando bem já não me falta muito. Não sendo somente rato, eu sou totalmente rato. Tão rato como ela é minha, tão rato como a crença que tenho em Deus.


Talvez Deus seja um rato, um rato que eu matei a livradas. Um rato que matei dentro de mim por inanição de fé. Me apavora ter um rato morto barbudo, peludo e dilacerado na minha frente... morto. Quanta heresia, Deus... Heresia...? Se Deus não tem cara, eu posso imaginá-lo como eu quiser. Pra mim, Deus é um rato de longas barbas brancas e ponto. E eu sou a imagem e semelhança de Deus.


Logo eu que me julgava pronto pra Deus, não estou. Ninguém está. Não a transcendência capaz de alcançar o inexistente nem a minha imagem de Deus rato. Eu matei Deus matando a mim mesmo. Ou será que inventei Deus? Será que eu me inventei? Será que, por ser covarde, inventei a morte? Não, isso seria demais para um rato (será que os ratos criam os seus próprios deuses?).


O amor que senti por ela é um amor rato. Amo a costela de um rato. Amo um sonho de rato: um queijo qualquer, por mais improvável que pareça. Sonhos são improváveis, por isso são sonhos e não realidade. Todo mundo sonha. Alguns querem queijo, outros império. Eu quero o universo. Quero ser o Deus rato deste universo rato. Eu a quero. Ela que é tão linda que me faz sentir humano, que faz Deus se sentir DEUS, O CRIADOR. Tão linda que apenas o silêncio pode homenageá-la.


Amo a figura de alguem que é ela ou a figura que eu acredito ser ela, mas que não é. O que pode ser mais emocionante do que se descobrir rato? Descobrir que se ama a uma rata? Vê-la passar rata e não poder gritar? Estar a passos da vida que julgo perfeita e saber que simplesmente eu posso nunca alcançá-la?



Para a vida perfeita, talvez tenha que matar um rato por dia ou um DEUS por dia. Talvez eu tenha que cometer um sacrifício por dia e isso resulte na minha morte. Talvez eu tenha que conviver com o meu caos interior. Talvez eu ainda tenha que viver com o caos dos outros. Talvez esse seja meu papel na sociedade (Eu tenho um papel na sociedade?). E qual seria o papel dos ratos na sociedade? Talvez ser rato seja tão complexo quanto ser humano, talvez não.


Quer saber a verdade? Eu tenho nojo de rato.


sábado, 27 de novembro de 2010

O Dia Mais Importante da Minha Vida



Hoje é o dia mais importante da minha vida. Sim, pelo menos até agora, não existiu nada semelhante em toda a minha existência. Durante um ano, dediquei horas e mais horas só para que tudo desse certo nesse momento. Sacrifiquei parte de minha juventude. Festas, mulheres, amigos... Deixei um pouco disso tudo para trás, só para que eu pudesse viver esse dia. E ele finalmente chegou.
Hoje, é o tudo ou nada. Toda a preparação vai se resumir a alguns instantes. Acordarei cedo, colocarei a melhor roupa. Vou me alimentar bem e ficar bem relaxado.
Esse ano inteiro me dediquei a tornar tudo melhor. Fui um perfeccionista.
Hoje, eu vou pedir a mulher que eu amo em casamento.Vou amá-la e mimá-la e amá-la, do amanhacer até o almoço. Então, com um frio no estômago, pedirei com a voz ensaiada, mas tremida, para que ela seja eternamente minha.
Se a resposta de 10 segundos for negativa, vai ser uma dor imensa. Ela vai arrancar de mim o equilibrio e gritos de dor. Vai rasgar meu peito e meu rosto de sangue e lágrimas. Ela, é tudo o que eu quero.
Mas ela nunca vai tirar de mim o que eu já vivi. Todo o ano de preparação, o suor transmutado em ouro, a insônia em poema. A angústia do dia anterior em amor. Muito amor.
Mesmo que nunca mais a veja, eu tenho certeza que valeu a pena
Se ela disser não, será um dia de dor que me esquecerei. Mas um ano de muito amor, que estará sempre marcado em minha memória.
É confuso, eu sei. Mas assim é a mente humana. Capaz de contestar até a si mesma. Certezas? Tenho poucas. Uma delas é que eu vivi. Amei, sofri, chorei. E só eu sei, o quanto a vida me deu.
Como dizia o poeta:
"Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem
sofreu..."
E cá entre nós. Na lógica do poeta, ninguém sabe mais da minha vida, do que eu.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quem escreveu este texto?


Sempre tive curiosidade a respeito do processo criativo. O que leva uma pessoa a escrever algo? O que é inspiração? Até que ponto o que escrevi é realmente meu? E ate onde os meus textos são apenas frutos de tudo que vi, li e vivi, não sendo assim inteiramente meus?


O processo criativo para mim não é um processo, é um ato. Eu sinto que os meus textos, se é que posso chamá-los de meus, vêm praticamente prontos até mim com começo meio e fim. Acho que posso chamar isso de criatividade, aquilo que nos presenteia com um texto pronto às vezes e outras, simplesmente, insiste em não aparecer.


Um texto é quase humano, tem vontade própria, não permite que eu me intrometa no seu destino, às vezes parece ser meu filho. Sempre me lembro de uma história que ouvi certa vez a respeito de um crítico literário do Sul que decide escrever um livro que tivesse um final feliz. Escrevendo o final do livro, a sua personagem principal comete suicídio. Ele não gosta desse final e tenta reescrevê-lo várias vezes e de várias formas, não obtendo sucesso. A personagem sempre, de uma forma ou de outra, acabava se matando no final. Ele depois de tantas tentativas frustradas desiste, não há como lutar contra a natureza dos textos. Eles são vivos, sabem o que querem.


Às vezes, eu tenho certeza que os textos não são meus, me vêm praticamente prontos, quase psicografados. Ao produzi-los começo a pensar a respeito de um monte de coisas sobre as quais eu nunca tinha pensado antes, apesar de estarem o tempo todo dentro de mim. Escrever é abrir uma oportunidade quase única de diálogo com o meu interior. Ele que quase sempre vive mudo e quando fala me emudece e me muda. Dessa forma, eu muitas vezes sinto que não sou eu o responsável por escrever as minhas coisas, são elas que me escrevem.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Traduzindo Economês ou Um Pouco de Realidade ou Austeridade é Coisa de Pobre


O capitalismo, como qualquer outro sistema político que já existiu na prática, consiste de um pequeno grupo que domina o resto das pessoas. Com o surgimento de uma alternativa, os capitalistas(ricos) do mundo passaram a ceder concessões aos dominados a fim de evitar a queda do seu domínio. Só que o capitalismo tem outra característica interessante. As crises cíclicas.
A ideia é simples. Se o rico investir o dinheiro na economia, o dinheiro se multiplica. Sim. Simples assim. Pergunte a qualquer um o que faria se ganhasse na Mega-Sena. "Deixava rendendo no banco". Essa é a ideia. Investir para multiplicar "magicamente" o dinheiro. Pois bem, de tempos em tempos a mágica falha. Mas existe uma premissa do capitalismo que não se pode ignorar, e é exatamente a premissa da dominância.
Explico: Como a maior parte do capital(cerca de 80%), financeiro ou não, está nas mãos do grupo dominante, todo o resto da população depende dele para sobreviver. Pois se esse capital não for reinvestido para gerar empregos e pagar salários a população NÃO TEM outro meio de sobreviver. Sim. Você depende deles para sobreviver.

Portanto, a lógica é simples. Se o sistema está em crise, se está faltando dinheiro, se não conseguimos mais criar empregos, então, como disse hoje Delfim Neto, ex-ministro da fazenda dos militares, na Folha de São Paulo: "apertem os cintos". E ele não está se dirigindo aos ricos que tem lanchas e mansões na Côte D'azur. Ele está se referindo as 90% das pessoas que trabalham. Você vai pagar mais impostos para bancar o rombo. Você vai perder direitos trabalhistas. Você pode até perder o seu ÚNICO meio de sustento.
Bom, mas essas crises passam. Achamos que a culpa de tudo é do governo e voltamos a acreditar na mágica de novo. É o que eles chamam de "volta da confiabilidade nas instituições financeiras". E o circo recomeça. Nem nos damos conta de que quem pagou a irresponsabilidade fomos nós."Vida que segue", diria o saudoso João Saldanha.
Mas não é isso que está acontecendo dessa vez. Parece que todas as crises anteriores foram deixando um pouquinho de déficit nas maiores economias capitalistas do mundo, que dessa vez insistem em não se recuperar. Então começa a austeridade. Com quem trabalha é claro.

Enfim, muitos dirão que o capitalismo é o melhor que nós temos por enquanto. Mas será que já não está na hora de debater alternativas? Será que não devíamos procurar talvez um capitalismo mais humano, mais igual? Até quando você, que tem mais de 90% de chance de ser um dos que aperta os cintos quando isso acontece, vai bancar aquela mansão linda na Côte D'azur, mas se esquecer disso depois que puder comprar o novo iPhone?
Fico tentando encontrar o ponto histórico onde deixamos de fazer escambo como nossos índios fizeram com os portugueses. Mas não consigo encontrar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um Poema Leve


De pesado, acusaram meu estilo

Julgam-me escritor denso, fechado

Quero provar que não

Também sei ser leve

E este poema é uma prova disso


Para ser leve

É preciso esquecer a confusão interna

Meu Deus, mas como é difícil.

Há uma revolução em mim

Que precisa fazer história


Eu tenho o caos dentro de mim

Quero sangue para escrever

Preciso que as ideias batalhem

E destruam umas as outras


Desejo a morte para obter a vida

Quero a transformação e a mudança

Preciso morrer e renascer

Estou cansando de mim


Quero a briga e o embate

Das minhas ideias perigosas

Eu quero mudar

Mudar de ideia e de vida


Mas não! Preciso deixar isso de lado

Não posso esquecer

Que este é um poema leve

Ah! A insustentável leveza do ser


Eu quero ser leve

Mas carrego a grande miséria de ser humano

A leveza, infelizmente, não condiz

Com a humanidade


Eu desejo a leveza

Mas tenho o caos dentro de mim

Quando será que vou parir a luz

De uma estrela cintilante?

domingo, 14 de novembro de 2010

Aquarela



Borrões
Tudo o que eu via eram borrões

Já havia tomado algumas garrafas de vodka boa
e mesmo depois de dançar a noite inteira,
ainda queria mais

Você sabe que bebeu a quantidade certa
quando enxerga borrões,
dança feito fumaça
e quer mais, sempre mais

Foi uma daquelas noites de sorte de um homem
daquelas que só acontecem uma vez
na vida de uma pessoa normal

"O Cara"
Eu era "O Cara" da noite

E isso quer dizer que todas as piranhas
queriam um pouco do papai aqui
sabe-se lá porquê

E foi saindo dessa festa que eu vi
Era um borrão loiro, mas bonito
amarelo e vermelho, um belo borrão
o borrão mais lindo que já conheci

Fiquei estático, apaixonado, louco
tudo o que eu queria era mergulhar
naquela aquarela

Cego
O amor é cego

Me aproximei e disse alguma coisa
ela respondeu com a voz mais doce que já ouvi
estava cansada e entediada, queria ir embora

Mas que droga Aquarela, vamos dançar!
não acredito em deusas que não dançam
não posso acreditar, é uma heresia
um absurdo medonho!

Aquarela foi embora, sem dançar
e eu, louco apaixonado
amando um borrão colorido
de voz suave e doce
uma deusa que não dança
um arco-iris de azar
um espelho de sorte
esperando, como à morte
e beijando por esporte
borrões que dançam
mas que nunca vou amar


Não acredito em deusas 
que não dançam
aquarela me fez acreditar
pois bastaram cores 
para esse louco poeta
amar mais uma vez
pois na memória ficou gravada
com uma certa turbidez
quase nada de lucidez
as cores dessa deusa
que eu roubei para pintar


Amor doce e louco
colorido, insano
do que mais precisa um homem?


Dançar...
Aquarela não dança

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Todos Estão Cegos


Ele nasceu normal, via o mundo como só a ótica infantil permite. A experiência de vida praticamente inexistente o tornava inocente. Os homens assemelham-se com o histórico de seus pais e com ele não foi diferente. Ele cresceu e mudou. As influências que recebeu dos seus pais ao longo dos seus primeiros anos de vida foi o tornando cego. É na educação dos filhos que se mostram as virtudes dos pais, mas também os defeitos. O seu pai não era dos mais virtuosos.

Mas ele não culpava apenas os seus pais, ser cego para ele era uma opção de vida, ele optou por ver a vida de outro jeito: de jeito nenhum.


No começo da vida adulta ele já enxergava muito pouco, com o passar dos anos e com o início das suas próprias experiências a sua visão foi diminuindo, diminuindo até que quando foi ver... ele não estava vendo, já estava cego.


Tão cego que se considerava mudo. Ele sentia que já não podia falar, se sentia oprimido, incompreendido. Quando falava era acusado de preconceituoso. Quanto absurdo, pensava ele.


Tão cego que já estava surdo. Já não mais compreendia como o mundo funcionava, não ouvia os outros. O mundo era o mundo dele, nada mais. Fechado em si mesmo para qualquer opinião externa.


Ele era totalmente cego, cego para o mundo: era incapaz de ter uma atitude altruísta. Não via o outro como digno dos meus direitos que ele. Não encarava o diferente como parte integrada do todo que ele também fazia parte. Era um idiotizado.


Ele era totalmente cego, cego para os próprios defeitos: não se considerava cego assim como jamais um vilão do cinema proclamou-se vilão, nem o idiota se diz idiota.


Ele foi cegado pelo preconceito, pelas influências do meio e por si mesmo. Coitado, os cegos de preconceito ainda vêem menos, que os cegos por nascimento.




AJUDEM-NO, ELE ESTÁ CEGO.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mr. K



Os primeiros raios de sol escapam por cima dos morros. A grama fica mais verde, as pupilas se contraem. O orvalho da manha jaz sobre os carros e as rosas. Pessoas animadas e outras nem tanto caminham para seus afazeres com cara de enterro. Conformados. Tudo nos conformes. Seria doloroso não fosse normal. E o homem se acostuma a tudo.
Foi nesse dia aparentemente normal como qualquer outro que K percebeu que havia algo errado. K era um sujeito normal como todos os outros. Tinha um emprego, uma esposa, duas filhas lindas e amigos. Mas nesse dia ele havia acordado diferente.
K abriu seus olhos e fitou o teto por um tempo. Não queria levantar mas sabia que tinha que. Seus sonhos haviam sido especialmente bons na noite anterior e lhe parecia que se voltasse a dormir ia continuar sua ilusão do ponto exato onde parou. Mas sabia que não podia.

- Isso é coisa de gente preguiçosa - pensou.
- Preciso ter disciplina...

Normalmente K não enfrentava problemas para acordar pela manha, a simples lógica da vida lhe servia de motivação. Mas ultimamente ele não se sentia motivado como antes. Já não lhe bastava a idéia de que trabalhar faz parte da vida. O esforço recompensado não lhe parecia lógico. Na lógica de K, aquilo tudo não fazia mais lógica. E o que é lógico? Será que a lógica é algo pessoal? Ele não sabia, só sabia que não havia lógica no que ele fazia.

Ora, acordar todo dia pela manhã e fazer aquilo que se faz todo o dia, da mesma forma, tentando manter o maior padrão possível. Fazer isso durante todo o dia, se alimentar, chegar em casa, dar atenção a esposa, as filhas e descansar pra conseguir trabalhar no outro dia. K achava isso lógico. Parece lógico. Uma vida normal e feliz. Feliz? Não sabia mais. Onde estava ele nessa historia toda? K não se via na própria vida. Era como se ele fosse o câmera ou o diretor do filme de sua vida. Ele a comandava, mas não aparecia no filme. Mas isso também não tem lógica.

Cansado de procurar outra lógica K se contentou em perceber apenas que a sua antiga vida não a tinha e algo precisava mudar. Por que ele precisava acordar? Para fazer o mesmo que fazia há 5 anos? Seria muito mais interessante dormir e sonhar e ver aonde seus sonhos o levaria, ou talvez correr. Correr por terras onde só é possível ver a grama verde e uma arvore aqui e ali. Rolar pela grama, rir, brincar. Então se cansar dessa brincadeira e plantar uma árvore. Depois arar um pouco a terra, tocar os animais. No outro dia acordar pronto para lavar roupa, empinar um papagaio, jogar bola e escrever relatórios. Para K isso seria a libertação.

Mas ele estava muito bem guardado, não seria fácil se libertar assim. Não precisava de muito. Nunca precisou. Mas todos a sua volta precisavam. Precisar de algo é uma prisão. K foi preso pelo amor. Ele se prendeu e se sacrificou. Por que foi assim que aprendeu a ser. Foi assim que o ensinaram ser certo. A redenção vem através do sacrifício. O altruísmo e o auto-sacrificio. O amor. Assim aprendemos.

Ele sabia disso. Ele amava muito os outros. Amava mais aos outros do que a si mesmo. Que pecado! Como pode um homem esquecer de si pelos outros? Isso era considerado belo, mas não era. Isso é uma doença.

K achava esse pensamento egoísta.

Após fitar as imperfeições do teto por um tempo se virou e beijou a sua esposa. Ela era bela e seu olhar era verdadeiro, era um olhar de quem ainda tinha esperança e por isso K a escolheu. Ele era um homem sem esperança, e portanto não poderia ser feliz. Seu sacrifício era porque acreditava que as outras pessoas poderiam ser felizes, por que elas tinham esperança. A esperança é a vida e vice e versa. Vivemos esperando algo melhor, vivemos buscando esse algo. Se alcançamos tudo ou se não temos mais esperanças de alcançar algo então a vida perde o sentido. E sem objetivos não sabemos o que fazer e ficamos confusos. K era um homem confuso. Às vezes se sentia como um ser de outro lugar bem distante.

K se sentia triste por isso.

O beijo de sua bela e esperançosa esposa lhe deu uma onde de felicidade. Por felicidade K entende aquela sensação de calor que nos envolve quando nos sentimos amados.

- Talvez o Amor seja uma energia – pensa K.
- E assim como o Trabalho e o Calor possa ser transferida e transformada. Pensando assim não passamos de parasitas de amor. Somos carentes de amor e movidos por ele. Essa energia divina, ou não, que nos deixa loucos. Somos viciados em amor. E ele é nossa energia.

K decidiu não amar mais. E a partir desse dia ele não mais amou. Porem ele sabia da necessidade das pessoas pela energia. K dizia que amava mas não mais amava. O amor era tolo, uma droga viciante. Algo que ele não precisava.

K se sentia um mentiroso.

Mas amar não tinha lógica. Era sempre o mesmo, era simples, como uma aproximação de um calculo complexo, as coisas tendiam a se simplificar. Porém existiam pessoas que gostavam de complicar e enfiar inúmeras variáveis numa equação tão simples. Para se chegar num resultado final aproximadamente igual, o que na pratica se mostra idêntico. Então por que complicavam? Por que gostariam que o amor fosse misterioso e belo. Precisa ser misterioso para que não se procure lógica já que ela não existe nesse caso. E precisa ser belo para ser amado. Quem ama, ama o amor e não outra pessoa. É um vicio sem lógica, uma autopunição sem sentido. Um ritual macabro e louco.

K se sentia vazio.



Finalmente se levantou, a beleza do dia não chamava sua atenção e nem a beleza e delicadeza de sua esposa, pois deixaram a muito tempo de ser novidade para ele. Sua casa parecia velha e as musicas do rádio tinham o sabor amargo do café que matinha K acordado. Suas filhas tinham energia e vontade. Tudo era novo para elas e ele sentiu que talvez elas pudessem encontrar a lógica. E pensou que o seu sacrifício era bom, por que para ele não havia salvação. Ele sabia demais.

K sentiu esperança.

K pegou o pão e o devorou sem cerimônias. O pão era chato. O pão era o mesmo. O café também. A conversa na mesa idem. Sentiu que estava congelado naqueles momentos e que não podia sair. Que tudo era igual e que ele quis isso. Essa prisão se chama estabilidade.

K estava preso.

K se dirigiu ao seu carro. O caminho de sempre. Ele se sentia confiante naquele trajeto. O conhecia como a palma de sua mão, que ele não conhecia tão bem, mas ainda assim conhecia mais do que muita coisa sobre si. Conhecer.

- Isso é perigoso – pensou – não bastam todas as correntes, ainda anseio por mais.

Ele queria mais. Nunca conseguiu deixar de buscar mais. Se algo era desconhecido, misterioso e novo, K buscava. Ele ia o mais fundo que podia, e quando voltava havia morrido um pouco e ganhado algumas correntes também.

K desejou morrer.

Não havia mais por que. Não existiam mistérios e não havia beleza. Somos seres simples. Atraímo-nos pelo belo e pela curiosidade, como qualquer outro animal. Porém podemos atingir uma evolução perigosa. A de contestar. K se lembrou de um livro que leu certa vez. O livro dizia que o homem começou seu declínio ao querer todo o conhecimento para si.

K concordou.

- Olá Senhor K, muito bom dia! – sua secretária o atendia sempre com aquele sorriso falso. Ele sabia que era falso porque os olhos da garota denunciavam sua tristeza e sua raiva. Ela não podia sorrir de verdade enquanto seu olhar estivesse daquele jeito.

- Olá, está tudo bem? – K sentia. Ele podia cheirar infelicidade, ele sentia o gosto da dor e via o arco-íris de cores e a aura que emanava das pessoas.

- Sim, claro. Porque? – Ela se esquivava. Ela queria parecer forte, bem e normal. Padronizada.

- Seus olhos... – K queria que o entendessem.

- O Senhor está estranho hoje. Quer um café?

K acenou um não impaciente e entrou na sua sala. Ficou pensando como teria sido se ela houvesse dito o que a afligia.

K se sentiu incapaz.

Ao sentar-se à mesa puxou uma lapiseira e começou a furar seu braço até que o sangue começasse a escorrer da superfície de sua pele. Ele se sentiu vivo. Enxugou o sangue e respirou fundo, puxou uma pilha de papéis e fez o mesmo que fazia há anos.

Quando terminou ainda faltavam 15 minutos para o fim do expediente e K não conseguiu fazer mais nada. Abateu-se sobre ele um pesar e uma lomba incrívelmente debilitantes. Contentou-se em manter-se acordado enquanto lutava consigo mesmo. Sentia o corpo pesado e os olhos baixarem com freqüência.

K estava fraco.

Ao chegar em casa K viu suas lindas filhas mas não teve esperança. E se afastou um pouco. Sua esposa também não parecia bem.

- Podíamos viajar para algum lugar esse fim de semana – disse ela.

Ela, assim como ele, precisava de algo novo, algo diferente. Tudo se torna monótono e chato com o tempo. Nós moldamos o nosso mundo. Nós criamos um jogo em que as regras são contra nossa natureza. Vivemos tentando mudar o que somos. Somos bestas saltando através das horas. Queremos criar e nos transfigurar. Queremos conhecer tudo o que há para conhecer e sentir tudo o que há para sentir. Mas sem prisões. Sem moldes ou padrões. Bestas.

K desejou ser uma Besta.

Mas K já havia sido domado e se confortado e se conformado. Uma forte e eterna negação de si mesmo. A dor ele agora sentia na alma. Eu existo? Essa prisão se chamava Doutrina.

Quando K se deitou achou que fazia pouco por sua família. Ele podia fazer mais, e todos estavam descontentes. Mas já não importava, a televisão os ajudava a preencher suas horas, horas vazias, no qual eram privados de fazer o que foram criados para fazer e injetavam o veneno em sua cabeça. E eles ficavam assim.

K conhecia a morte. Era triste para os que ficavam. Um alívio para alguns. Um terror para outros. Uma libertação. Ele devia esperá-la pacientemente. Não havia nada a se fazer por ele. Estava preso e sem forcas para se libertar. Então aceitou seu cativeiro como um cão aceita o dono e tentou chorar. Mas não conseguiu.

K não morreu, mas esta morto.



quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Fourmis Dans Les Paumes


Era uma sala. Uma sala com uma mesa de jantar rodeada por cadeiras ocupadas por uma pretensa nobreza. Nobres com formigas na mão, metidos a franceses. Reacionários do meu país, Brasil. Da parede, Salvador, em quadros de formas disformes, espia a nossa educada nobreza.


O jantar caminha como de costume: educadíssimas conversas arrastadas se espalham delicadamente ao longo da mesa. Um homem de gravata de seda levanta e propõe um brinde, todos levantam a taça e repetem o brinde em uníssono.


De repente, do fundo da sala se abre uma grossa cortina vermelha, revelando uma imensa platéia lotada de sujeitos de casaca e senhoras com vestidos de veludo que observam a cena em total silêncio.



Quase que por conseqüência da abertura da cortina, a nossa nobreza inicia uma educadíssima guerra pela atenção da platéia. Um deles, distraído em meio a guerra, perde as calças de linho revelando o seu coração de chita. Situação constrangedora. Todos o observam com desprezo. A platéia inquieta começa a vaiar o sujeito. É o caos. O mais esperto dos nobres levanta e esfaqueia o homem de coração de chita, o público aplaude com entusiasmo. Os outros nobres, percebendo a reação dos espectadores, também levantam-se e atingem o pobre homem das mais variadas formas. Alguns acertam o infeliz com força afim de mostrar a sua reprovação para os presentes. Outros, com certa leveza, afinal de contas, eles sabem que também possuem corações de chita.



A platéia vingada se acalma. Tudo volta ao normal, o corpo do homem no chão não é notado por nenhum dos presentes. A encenação prossegue normalmente.


No fim, a despedida. Todos deixam a casa se dizendo extremamente satisfeitos pelo convite e agradecendo a excelente noite. As cortinas se fecham. A mulher tranca a porta, sorri pro marido com olhos de alívio e desliza apressadamente para o banheiro.


O homem caminha lentamente até o quarto, senta na cama, afrouxa a gravata, tira o sapato e solta um longo arroto que guardava preso por grande parte da noite.


Mais um dia e mais um ato, finalmente, chega ao fim.