Os primeiros raios de sol escapam por cima dos morros. A grama fica mais verde, as pupilas se contraem. O orvalho da manha jaz sobre os carros e as rosas. Pessoas animadas e outras nem tanto caminham para seus afazeres com cara de enterro. Conformados. Tudo nos conformes. Seria doloroso não fosse normal. E o homem se acostuma a tudo.
Foi nesse dia aparentemente normal como qualquer outro que K percebeu que havia algo errado. K era um sujeito normal como todos os outros. Tinha um emprego, uma esposa, duas filhas lindas e amigos. Mas nesse dia ele havia acordado diferente.
K abriu seus olhos e fitou o teto por um tempo. Não queria levantar mas sabia que tinha que. Seus sonhos haviam sido especialmente bons na noite anterior e lhe parecia que se voltasse a dormir ia continuar sua ilusão do ponto exato onde parou. Mas sabia que não podia.
- Isso é coisa de gente preguiçosa - pensou.
- Preciso ter disciplina...
Normalmente K não enfrentava problemas para acordar pela manha, a simples lógica da vida lhe servia de motivação. Mas ultimamente ele não se sentia motivado como antes. Já não lhe bastava a idéia de que trabalhar faz parte da vida. O esforço recompensado não lhe parecia lógico. Na lógica de K, aquilo tudo não fazia mais lógica. E o que é lógico? Será que a lógica é algo pessoal? Ele não sabia, só sabia que não havia lógica no que ele fazia.
Ora, acordar todo dia pela manhã e fazer aquilo que se faz todo o dia, da mesma forma, tentando manter o maior padrão possível. Fazer isso durante todo o dia, se alimentar, chegar em casa, dar atenção a esposa, as filhas e descansar pra conseguir trabalhar no outro dia. K achava isso lógico. Parece lógico. Uma vida normal e feliz. Feliz? Não sabia mais. Onde estava ele nessa historia toda? K não se via na própria vida. Era como se ele fosse o câmera ou o diretor do filme de sua vida. Ele a comandava, mas não aparecia no filme. Mas isso também não tem lógica.
Cansado de procurar outra lógica K se contentou em perceber apenas que a sua antiga vida não a tinha e algo precisava mudar. Por que ele precisava acordar? Para fazer o mesmo que fazia há 5 anos? Seria muito mais interessante dormir e sonhar e ver aonde seus sonhos o levaria, ou talvez correr. Correr por terras onde só é possível ver a grama verde e uma arvore aqui e ali. Rolar pela grama, rir, brincar. Então se cansar dessa brincadeira e plantar uma árvore. Depois arar um pouco a terra, tocar os animais. No outro dia acordar pronto para lavar roupa, empinar um papagaio, jogar bola e escrever relatórios. Para K isso seria a libertação.
Mas ele estava muito bem guardado, não seria fácil se libertar assim. Não precisava de muito. Nunca precisou. Mas todos a sua volta precisavam. Precisar de algo é uma prisão. K foi preso pelo amor. Ele se prendeu e se sacrificou. Por que foi assim que aprendeu a ser. Foi assim que o ensinaram ser certo. A redenção vem através do sacrifício. O altruísmo e o auto-sacrificio. O amor. Assim aprendemos.
Ele sabia disso. Ele amava muito os outros. Amava mais aos outros do que a si mesmo. Que pecado! Como pode um homem esquecer de si pelos outros? Isso era considerado belo, mas não era. Isso é uma doença.
K achava esse pensamento egoísta.
Após fitar as imperfeições do teto por um tempo se virou e beijou a sua esposa. Ela era bela e seu olhar era verdadeiro, era um olhar de quem ainda tinha esperança e por isso K a escolheu. Ele era um homem sem esperança, e portanto não poderia ser feliz. Seu sacrifício era porque acreditava que as outras pessoas poderiam ser felizes, por que elas tinham esperança. A esperança é a vida e vice e versa. Vivemos esperando algo melhor, vivemos buscando esse algo. Se alcançamos tudo ou se não temos mais esperanças de alcançar algo então a vida perde o sentido. E sem objetivos não sabemos o que fazer e ficamos confusos. K era um homem confuso. Às vezes se sentia como um ser de outro lugar bem distante.
K se sentia triste por isso.
O beijo de sua bela e esperançosa esposa lhe deu uma onde de felicidade. Por felicidade K entende aquela sensação de calor que nos envolve quando nos sentimos amados.
- Talvez o Amor seja uma energia – pensa K.
- E assim como o Trabalho e o Calor possa ser transferida e transformada. Pensando assim não passamos de parasitas de amor. Somos carentes de amor e movidos por ele. Essa energia divina, ou não, que nos deixa loucos. Somos viciados em amor. E ele é nossa energia.
K decidiu não amar mais. E a partir desse dia ele não mais amou. Porem ele sabia da necessidade das pessoas pela energia. K dizia que amava mas não mais amava. O amor era tolo, uma droga viciante. Algo que ele não precisava.
K se sentia um mentiroso.
Mas amar não tinha lógica. Era sempre o mesmo, era simples, como uma aproximação de um calculo complexo, as coisas tendiam a se simplificar. Porém existiam pessoas que gostavam de complicar e enfiar inúmeras variáveis numa equação tão simples. Para se chegar num resultado final aproximadamente igual, o que na pratica se mostra idêntico. Então por que complicavam? Por que gostariam que o amor fosse misterioso e belo. Precisa ser misterioso para que não se procure lógica já que ela não existe nesse caso. E precisa ser belo para ser amado. Quem ama, ama o amor e não outra pessoa. É um vicio sem lógica, uma autopunição sem sentido. Um ritual macabro e louco.
K se sentia vazio.
Finalmente se levantou, a beleza do dia não chamava sua atenção e nem a beleza e delicadeza de sua esposa, pois deixaram a muito tempo de ser novidade para ele. Sua casa parecia velha e as musicas do rádio tinham o sabor amargo do café que matinha K acordado. Suas filhas tinham energia e vontade. Tudo era novo para elas e ele sentiu que talvez elas pudessem encontrar a lógica. E pensou que o seu sacrifício era bom, por que para ele não havia salvação. Ele sabia demais.
K sentiu esperança.
K pegou o pão e o devorou sem cerimônias. O pão era chato. O pão era o mesmo. O café também. A conversa na mesa idem. Sentiu que estava congelado naqueles momentos e que não podia sair. Que tudo era igual e que ele quis isso. Essa prisão se chama estabilidade.
K estava preso.
K se dirigiu ao seu carro. O caminho de sempre. Ele se sentia confiante naquele trajeto. O conhecia como a palma de sua mão, que ele não conhecia tão bem, mas ainda assim conhecia mais do que muita coisa sobre si. Conhecer.
- Isso é perigoso – pensou – não bastam todas as correntes, ainda anseio por mais.
Ele queria mais. Nunca conseguiu deixar de buscar mais. Se algo era desconhecido, misterioso e novo, K buscava. Ele ia o mais fundo que podia, e quando voltava havia morrido um pouco e ganhado algumas correntes também.
K desejou morrer.
Não havia mais por que. Não existiam mistérios e não havia beleza. Somos seres simples. Atraímo-nos pelo belo e pela curiosidade, como qualquer outro animal. Porém podemos atingir uma evolução perigosa. A de contestar. K se lembrou de um livro que leu certa vez. O livro dizia que o homem começou seu declínio ao querer todo o conhecimento para si.
K concordou.
- Olá Senhor K, muito bom dia! – sua secretária o atendia sempre com aquele sorriso falso. Ele sabia que era falso porque os olhos da garota denunciavam sua tristeza e sua raiva. Ela não podia sorrir de verdade enquanto seu olhar estivesse daquele jeito.
- Olá, está tudo bem? – K sentia. Ele podia cheirar infelicidade, ele sentia o gosto da dor e via o arco-íris de cores e a aura que emanava das pessoas.
- Sim, claro. Porque? – Ela se esquivava. Ela queria parecer forte, bem e normal. Padronizada.
- Seus olhos... – K queria que o entendessem.
- O Senhor está estranho hoje. Quer um café?
K acenou um não impaciente e entrou na sua sala. Ficou pensando como teria sido se ela houvesse dito o que a afligia.
K se sentiu incapaz.
Ao sentar-se à mesa puxou uma lapiseira e começou a furar seu braço até que o sangue começasse a escorrer da superfície de sua pele. Ele se sentiu vivo. Enxugou o sangue e respirou fundo, puxou uma pilha de papéis e fez o mesmo que fazia há anos.
Quando terminou ainda faltavam 15 minutos para o fim do expediente e K não conseguiu fazer mais nada. Abateu-se sobre ele um pesar e uma lomba incrívelmente debilitantes. Contentou-se em manter-se acordado enquanto lutava consigo mesmo. Sentia o corpo pesado e os olhos baixarem com freqüência.
K estava fraco.
Ao chegar em casa K viu suas lindas filhas mas não teve esperança. E se afastou um pouco. Sua esposa também não parecia bem.
- Podíamos viajar para algum lugar esse fim de semana – disse ela.
Ela, assim como ele, precisava de algo novo, algo diferente. Tudo se torna monótono e chato com o tempo. Nós moldamos o nosso mundo. Nós criamos um jogo em que as regras são contra nossa natureza. Vivemos tentando mudar o que somos. Somos bestas saltando através das horas. Queremos criar e nos transfigurar. Queremos conhecer tudo o que há para conhecer e sentir tudo o que há para sentir. Mas sem prisões. Sem moldes ou padrões. Bestas.
K desejou ser uma Besta.
Mas K já havia sido domado e se confortado e se conformado. Uma forte e eterna negação de si mesmo. A dor ele agora sentia na alma. Eu existo? Essa prisão se chamava Doutrina.
Quando K se deitou achou que fazia pouco por sua família. Ele podia fazer mais, e todos estavam descontentes. Mas já não importava, a televisão os ajudava a preencher suas horas, horas vazias, no qual eram privados de fazer o que foram criados para fazer e injetavam o veneno em sua cabeça. E eles ficavam assim.
K conhecia a morte. Era triste para os que ficavam. Um alívio para alguns. Um terror para outros. Uma libertação. Ele devia esperá-la pacientemente. Não havia nada a se fazer por ele. Estava preso e sem forcas para se libertar. Então aceitou seu cativeiro como um cão aceita o dono e tentou chorar. Mas não conseguiu.
K não morreu, mas esta morto.