quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quem escreveu este texto?


Sempre tive curiosidade a respeito do processo criativo. O que leva uma pessoa a escrever algo? O que é inspiração? Até que ponto o que escrevi é realmente meu? E ate onde os meus textos são apenas frutos de tudo que vi, li e vivi, não sendo assim inteiramente meus?


O processo criativo para mim não é um processo, é um ato. Eu sinto que os meus textos, se é que posso chamá-los de meus, vêm praticamente prontos até mim com começo meio e fim. Acho que posso chamar isso de criatividade, aquilo que nos presenteia com um texto pronto às vezes e outras, simplesmente, insiste em não aparecer.


Um texto é quase humano, tem vontade própria, não permite que eu me intrometa no seu destino, às vezes parece ser meu filho. Sempre me lembro de uma história que ouvi certa vez a respeito de um crítico literário do Sul que decide escrever um livro que tivesse um final feliz. Escrevendo o final do livro, a sua personagem principal comete suicídio. Ele não gosta desse final e tenta reescrevê-lo várias vezes e de várias formas, não obtendo sucesso. A personagem sempre, de uma forma ou de outra, acabava se matando no final. Ele depois de tantas tentativas frustradas desiste, não há como lutar contra a natureza dos textos. Eles são vivos, sabem o que querem.


Às vezes, eu tenho certeza que os textos não são meus, me vêm praticamente prontos, quase psicografados. Ao produzi-los começo a pensar a respeito de um monte de coisas sobre as quais eu nunca tinha pensado antes, apesar de estarem o tempo todo dentro de mim. Escrever é abrir uma oportunidade quase única de diálogo com o meu interior. Ele que quase sempre vive mudo e quando fala me emudece e me muda. Dessa forma, eu muitas vezes sinto que não sou eu o responsável por escrever as minhas coisas, são elas que me escrevem.

5 comentários:

  1. Esse texto me lembrou um do Drummond... Condordo com você, acho que os textos não são criados, nós apenas transcrevemos algo já pronto.
    "...
    Penetra surdamente no reino das palavras.
    Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
    Estão paralisados, mas não há desespero,
    há calma e frescura na superfície intata.
    Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
    Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
    Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
    Espera que cada um se realize e consume
    com seu poder de palavra
    e seu poder de silêncio.
    Não forces o poema a desprender-se do limbo.
    Não colhas no chão o poema que se perdeu.
    Não adules o poema. Aceita-o
    como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
    no espaço.

    Chega mais perto e contempla as palavras.
    Cada uma
    tem mil faces secretas sob a face neutra
    e te pergunta, sem interesse pela resposta,
    pobre ou terrível, que lhe deres:
    Trouxeste a chave?

    Repara:
    ermas de melodia e conceito
    elas se refugiaram na noite, as palavras.
    Ainda úmidas e impregnadas de sono,
    rolam num rio difícil e se transformam em desprezo."
    Drummond

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  2. Estranho, quando escrevemos, o texto já está pronto. Mas onde será que ele nasce? Porque quando leio os textos de vocês, parece que escuto a voz de vocês lendo, não sei porque. Eles tem muito de vocês neles. Mas se não há processo de criação, onde eles são formados?
    (Sssssoooohhhhhhhh)

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  3. Acho que o escritor tem uma posição dupla em relação as coisas que escreve. Eu sou o agente da ação, eu escrevo. Mas também sou submetido a algo que eu não sei bem o que é. Um texto não se mostra pra qualquer um, ele escolhe o seu escritor. E é por isso que eles tem tanto de mim, eles me escolheram porque se identificam com meus pensamentos. Eles acham que sou capacitado para escrevê-los. Por isso que escrever sob uma inspiração inexplicável me deixa orgulhoso: eu fui escolhido.

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  4. Interessantíssimo ponto de vista!
    Mas eu discordo em parte. Acho que os textos estão sim prontos dentro de ti, mas isso não os torna menos seus. Se são o que você tem de mais profundo falando, como podem não ser seus?
    A criação do texto antecede o processo de escrita, obviamente. Quando você escreve, apenas organiza o que a sua alma quer dizer. E a alma tem meios estranhos de se expressar.

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  5. Concordo com você, Harry. Isso também pode acontecer. Cada processo ou cada ato criativo é diferente. As vezes eles nos vem absolutamente prontos, outras precisamos trabalhar um pouco. As vezes pensamos parar pra pensar e deixar o texto vir. Outras em um momento qualquer do nosso dia o texto vem, sem nenhum esforço.

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