O rosto coberto de lama escondia os traços índios de suas feições. Caído no chão, apoiado no braço que ainda estava bom, tinha os olhos abertos, mas sua mente vagava num lugar bem longe dali. Lembrava de seu pai lhe abraçando quando ele chorava por ter perdido sua primeira caça. Sua mãe que o consolou quando seu filho teimava em não vir. Sua esposa que morrera no parto gritando que o amava. E finalmente o choro de despedida ao abandonar sua família. Então, escuridão.
Ainda jovem aprendeu a lição mais importante de sua vida. Após sair em sua primeira caçada, para honrar a tradição, por um descuido bobo, deixou que sua caça fugisse. Chegou a tribo com os olhos arregalados. Sabia que havia errado, deveria ser mais atento. Mas tinha medo da reação dos seus. Estava com os olhos arregalados para observar a reação de cada um. Guardar cada movimento de escárnio ou ódio para se martirizar ainda mais, para aprofundar de vez a ferida do fracasso. Tinha medo. E o pior era toda a gente que estaria lá. Era uma festa, um rito de passagem.
Caminhou vagarosamente até chegar ao meio da aldeia, a cabeça sempre erguida, como um escravo que não quer agradar o dono com sua dor. Os garotos de sua idade vão abrindo caminho para ele. A conversa e os risos vão se calando a medida que todos reparam nas mãos vazias. Só o fogo e as cigarras. E Iaé.
O curumim, como um aborto, se sente do tamanho de um grilo. As sombras parecem crescer e ele se sente sozinho. Fracassou. Ele é o aborto da tribo. Mesmo sem preceber nenhuma reação a ferida vai galgando fundo sob a pele e como uma faca vai rompendo todos os orgãos. Primeiro o pulmão, de baixo para cima, deixando ofegante. Depois o coração, perfurado, batendo mais forte. Os olhos vão sendo abertos pelo metal frio e finalmente os tendões se vão.
Ajoelhado, apoiado em uma mão, pôde ver embaçado, seu pai correr em sua direção. E com o abraço mais apertado que a sucuri disse que era o mais orgulhoso da aldeia, pois naquele dia seu filho provou a todos que sabia aprender como nenhum outro. E que por isso não segurasse choro que corta a alma, deixasse as lágrimas correrem feito rio, pois só assim que o índio aprende, só assim.
Naquele instante compreendeu tudo. Sim, era assim que deviam ser as coisas. Ele havia errado e estava se lastimando por isso. A dor era faca que cortava, mas depois era erva que cura, e deixava mais forte. Ele havia se tornando homem.

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