terça-feira, 2 de novembro de 2010

Curtas




Não existe nada pior do que o fumante arrependido. O ex-fumante. Basta sacar o maço do bolso e ele já diz, não faça isso, ou ainda, eu tenho técnicas ótimas para parar. Mesmo diante de um seco, eu não quero parar, o ex-chaminé insiste, mas devia, isso faz muito mal. E começa então a desenrolar histórias sobre quando fumava, o quanto a vida era ruim então e o quanto a vida melhorou depois que parou. Diz que todos da família estão notando a diferença e que você deveria experimentar também. Ele simplesmente não vai parar. Da mesma forma, age o esquerdista arrependido. 

Envelope à mão vem o médico. Malabarismo entre dedos com papel marrom para ele. Olhos baixos e feições tristes para mim. Leucemia. Afundo na cadeira de couro negro. Acharemos um doador. Quando? Não sei. E agora? Internação até encontrarmos um doador compatível. E o que eu faço até lá? Fica no quarto. Sem contato físico. Tudo bem. Morei anos em São Paulo.

A falsa modéstia. O perdão ressentido. A inveja contida. O amor estrangulado. Cães mortos no asfalto. Mendigos vivos na rua. Amor de verdade fraco. Dominação forte. Carência. Muita Carência. Falsa simpatia. Falsos deuses. Falso cristão. Compaixão. Ah! A compaixão! Humano! Demasiado humano! O macaco uma vergonha. O leão um ideal. Camelos estalando cascos pelo asfalto enquanto chora em seu quarto mais uma mulher abandonada.

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