
Era uma sala. Uma sala com uma mesa de jantar rodeada por cadeiras ocupadas por uma pretensa nobreza. Nobres com formigas na mão, metidos a franceses. Reacionários do meu país, Brasil. Da parede, Salvador, em quadros de formas disformes, espia a nossa educada nobreza.
O jantar caminha como de costume: educadíssimas conversas arrastadas se espalham delicadamente ao longo da mesa. Um homem de gravata de seda levanta e propõe um brinde, todos levantam a taça e repetem o brinde em uníssono.
De repente, do fundo da sala se abre uma grossa cortina vermelha, revelando uma imensa platéia lotada de sujeitos de casaca e senhoras com vestidos de veludo que observam a cena em total silêncio.
Quase que por conseqüência da abertura da cortina, a nossa nobreza inicia uma educadíssima guerra pela atenção da platéia. Um deles, distraído em meio a guerra, perde as calças de linho revelando o seu coração de chita. Situação constrangedora. Todos o observam com desprezo. A platéia inquieta começa a vaiar o sujeito. É o caos. O mais esperto dos nobres levanta e esfaqueia o homem de coração de chita, o público aplaude com entusiasmo. Os outros nobres, percebendo a reação dos espectadores, também levantam-se e atingem o pobre homem das mais variadas formas. Alguns acertam o infeliz com força afim de mostrar a sua reprovação para os presentes. Outros, com certa leveza, afinal de contas, eles sabem que também possuem corações de chita.
A platéia vingada se acalma. Tudo volta ao normal, o corpo do homem no chão não é notado por nenhum dos presentes. A encenação prossegue normalmente.
No fim, a despedida. Todos deixam a casa se dizendo extremamente satisfeitos pelo convite e agradecendo a excelente noite. As cortinas se fecham. A mulher tranca a porta, sorri pro marido com olhos de alívio e desliza apressadamente para o banheiro.
O homem caminha lentamente até o quarto, senta na cama, afrouxa a gravata, tira o sapato e solta um longo arroto que guardava preso por grande parte da noite.
Mais um dia e mais um ato, finalmente, chega ao fim.
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