quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Fourmis Dans Les Paumes


Era uma sala. Uma sala com uma mesa de jantar rodeada por cadeiras ocupadas por uma pretensa nobreza. Nobres com formigas na mão, metidos a franceses. Reacionários do meu país, Brasil. Da parede, Salvador, em quadros de formas disformes, espia a nossa educada nobreza.


O jantar caminha como de costume: educadíssimas conversas arrastadas se espalham delicadamente ao longo da mesa. Um homem de gravata de seda levanta e propõe um brinde, todos levantam a taça e repetem o brinde em uníssono.


De repente, do fundo da sala se abre uma grossa cortina vermelha, revelando uma imensa platéia lotada de sujeitos de casaca e senhoras com vestidos de veludo que observam a cena em total silêncio.



Quase que por conseqüência da abertura da cortina, a nossa nobreza inicia uma educadíssima guerra pela atenção da platéia. Um deles, distraído em meio a guerra, perde as calças de linho revelando o seu coração de chita. Situação constrangedora. Todos o observam com desprezo. A platéia inquieta começa a vaiar o sujeito. É o caos. O mais esperto dos nobres levanta e esfaqueia o homem de coração de chita, o público aplaude com entusiasmo. Os outros nobres, percebendo a reação dos espectadores, também levantam-se e atingem o pobre homem das mais variadas formas. Alguns acertam o infeliz com força afim de mostrar a sua reprovação para os presentes. Outros, com certa leveza, afinal de contas, eles sabem que também possuem corações de chita.



A platéia vingada se acalma. Tudo volta ao normal, o corpo do homem no chão não é notado por nenhum dos presentes. A encenação prossegue normalmente.


No fim, a despedida. Todos deixam a casa se dizendo extremamente satisfeitos pelo convite e agradecendo a excelente noite. As cortinas se fecham. A mulher tranca a porta, sorri pro marido com olhos de alívio e desliza apressadamente para o banheiro.


O homem caminha lentamente até o quarto, senta na cama, afrouxa a gravata, tira o sapato e solta um longo arroto que guardava preso por grande parte da noite.


Mais um dia e mais um ato, finalmente, chega ao fim.

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