sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Inseto

Um inseto
sim, isso mesmo
um inseto

inseto, insensato e impuro
que voa, direto nas entranhas
caminha nas veias e artérias
carregando o fruto de seu trabalho

sua antiga natureza
jaz morta
ele vê, pensa, age
como um inseto

o bolor o agrada
e seus espinhos
machucam sem querer

ele está preso
esta lá
ele
é o inseto

insensato, impuro
incompreensível
veias, artérias
trabalho, trabalho

chagas por toda pele
eles pedem
"volte!"
mas ele não voltará

Cotidiano

Inutilidade
verdade
divindade e coragem
Poder, orgulho
Senhor

Falta amor e coração
faltam sonhos
a alegoria das horas que passam
horas perdidas, horas tomadas
roubadas, violentadas

No fim, a escuridão
uma vodka barata
sofá, televisão

O instinto
não deixa espaço
para sonhar.

Sentido

Arranque meus olhos!
Escuridão
não mais verei as belas moças
peitos, bundas,
pinturas, livros, ladrões

Fure meus tímpanos
silêncio
pássaros, cachoeiras?
Carros, caminhões?
Cochichos ao pé do ouvido?
Ainda aí estão?

Corte a língua
insosso
sal, mel, leite?
Veneno, estragado, bom?
Bocas e peles e pêlos por que não?

Tire de mim também
esse nariz e essa pele
deixe-me descobrir o que sou
de verdade

Espírito? Amor? Nada?
Na dúvida, me deixe a língua
para a amargura de bebidas enebriantes
adoçar minha insensível solidão