segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dragões em São Paulo!



Hoje eu vi um dragão. Sim meus amigos, essas feras mitológicas ainda existem. E o termo "fera" se encaixa muito bem aqui. Esses seres alados que aterrorizavam vilarejos pela Ásia  e Europa, acreditem ou não, ainda existem hoje, aterrozirando transeuntes do metrô paulista. Pior! Andam por aí pelas ruas como se fossem pessoas normais. Esses anciões, melhor, velhacos de nossa história, agora se transfiguram em seres humanos e agem como tal. Na correria dos metrôs e das avenidas e passarelas não é possível notá-los. Diante de tal ameaça ao mesmo tempo perigosa e furtiva, decidi contar-lhes algumas manhas para desnudar tais seres de sua máscara.
O primeiro passo é se aproximar do suspeito, com muita simpatia e olhares despretensiosos. Em sua posição de criaturas milenares, e portanto dotadas de conhecimentos tais, é recomendado lidar com eles da forma mais humilde possível. Um bom lugar para se encontrar um possível ser draconico(?) é perambular pela Moema ou pelo Jardins, pois aí os tais fazem seus lares. Em suas incríveis e gigantescas cavernas eles guardam os resultados de seus espólios. Ali também que cultivam seus pequenos dragõezinhos que, assim que tiverem idade para ganhar o mundo e começar a espoliar também, são mandados para uma espécie de  rito de passagem. A grande parte é enviada para o bairro japonês, aonde vão se degladiar contra outros pequenos dragões em formação, se tornando dragões mais fortes, sábios e bem preparados no futuro. Foi neste lugar que encontrei meu espécime.
Diante da figura mitológica transfigurada não pude disfarçar meu descaso diante da descrença na existência da criatura, e aventureiro que sou, comecei a contar causos de minhas desventuras em terras estranhas. É nesse momento que o leitor amigo deve ficar atento aos sinais. Diante da ameaça a sua superioridade natural a criatura começa a produzir um veneno em suas glândulas salivares para se defender do inimigo. Desculpem se perco tempo com explicações demasiado detalhistas de fisiologia, mas ainda sinto os efeitos do temeroso encontro. Enfim, o fato é que tomado de um instinto quase que natural, aprimorado durante anos em seu feroz e desumano rito de passagem, o animal(?) tem a necessidade de se livrar do veneno. Veja bem que não estamos aqui tentando denegrir a fera mitológica. É um instinto, que o meio, por seleção natural, impôs a pobre criatura. Divago mais uma vez. Façamos uma pausa.
O que quero dizer é que ameaçada sua superioridade draconica(?) ele começará a deixar o veneno escapar por entre seus dentes. Sua língua bifurcada de serpente(todos sabem que a língua dos dragões é assim certo?) vai começar a sibilar na tentativa de destruir seu oponente. Esse é o momento, caro leitor, de manter-se firme. Pois basta um pequeno vacilo, um pingo de humanidade e o referido monstro irá destruí-lo. Não, não vai devorá-lo ou cuspir fogo. Isso é coisa do passado. Os dragões de hoje, transfigurados e evoluídos, destroem o que você tem de melhor. Seu poderoso veneno, uma vez em contato com o coração de uma pessoa comum tem o poder de transformar a pessoa em um deles. Não. Não são vampiros bonitinhos de um filme de Holywood. São dragões, porra.
Nesse momento o leitor deve se manter calmo e continuar agindo normalmente, deixando que o veneno siga o seu curso natural no corpo, e terminar como todo outro veneno que você ingere. No vaso sanitário. Pois diante da resistência do seu opositor(?) o ser velhaco(ancião?) irá produzir mais e mais veneno, mostrando finalmente o seu verdadeiro ser. O próprio veneno corrói a falsa pele de cordeiro(gente?) e mostra a todos o que aquele ser realmente é. Não que os outros dragões se importem, mas isso os deixa realmente irritados. E não tem nada mais divertido que ver o desespero desses seres, com o próprio veneno.
Mas não há maneira de derrotá-los? Perguntará o desavisado leitor. E já aviso que não! Não vale a pena nem tentar! Pelo menos foi o que um sujeito bigodudo me contou. Disse que por baixo da pele de gente(cordeiro?) existem escamas, com inscrições numa linga arcana que significam "não pode". Achei bem apropriado, e pretendo averiguar isso da próxima vez que esbarrar com um deles.
O caso é que, ao mesmo tempo sobrevivente e bardo que sou, resolvi alertar meus amigos mais próximos para o perigo que aqui existe. E que, não se atemorizem demais. Apesar dos perigos supracitados, desnudados esses seres de sua frágil casca o que sobra é um ser rídiculo, que parece um calango de minha terra, os quais nos divertiam com sua fuga desesperada dos meninos que jogavam bola na rua.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Tempo, tempo, tempo





Não há tempo. É tudo muito curto, inclusive o tempo. O tempo do pensamento é breve como a eternidade. Resta tão pouco da eternidade em mim, eu só tenho o agora.

Eu só tenho hoje para dizer tudo que quero.Todas as minhas angústias e inseguranças. Só tenho hoje para despir a minha casca de forte. Preciso me mostrar para o mundo, mas resta tão pouco de mim. Talvez eu já tenha perdido aquilo que quero para os braços de outro. Talvez não dê mais tempo de recuperar.


Tempo: o imensurável desejo de todos nos.


Tempo: forma de me atrelar ao passado que eu não consigo idealizar. É engraçado como as pessoas fazem isso o tempo todo, recordam-se do passado como se ele tivesse sido grandioso. Tomando para si realizações e situações que nunca aconteceram.


Tenho a imaginação curta, o meu passado é só o meu passado. Não é, infelizmente, dos mais emocionantes. Alguns momentos bons, sem dúvida, que fazem a minha vida parecer de outro. Aquele dia, aquela festa, aquela mulher. Não parecia eu, mas era. Eu já me perdi no que eu quase nunca fui. Já não resta nada a fazer.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mr. K vai ao Hospício


Preso em um cubículo. As paredes sem janelas e tudo que há no quarto é uma cama e um guarda-roupa de duas portas. O chão levemente empoeirado,  tudo cheira a mofo. Maldição, eles acham que estou louco. Eu acho que estou louco. Todo dia me dão remédios para me animar, mas não há nada para fazer por aqui, então eu continuo desanimado. Parece que estou no fundo escuro de uma caverna e a cada dia que passa a luz que me indica a saída fica cada vez mais fraca, e todos os dias eu penso no trabalho que vou ter para voltar e então eu me sento. Eu me sento na beirada da cama e o chão continua empoeirado, eu abro o guarda-roupa vazio e o chão continua empoeirado. A única coisa que cresce por aqui é o mofo, e até mesmo ele, às vezes, parece triste. Eu me levanto e pego meu remédio, mas tudo parece igual. As pessoas me fazem perguntas para as quais eu não tenho respostas. Durante toda minha vida procurei aprender as coisas e não ter resposta para algo realmente me incomoda. Eu me reviro no colchão e converso com o mofo mas nós não chegamos a conclusão nenhuma. O mofo diz:

- O mais importante é crescer rapaz!
- Eu acho que já estou muito velho para crescer...
- Bom, comer também é importante...

O mofo não é uma boa companhia, ele só fica ali, se aproveitando da minha falta de janelas para crescer e comer.

- Por que você faz isso?

Silêncio.
Bom, talvez ele também não tenha uma resposta. Os dias então se arrastam, o mofo não fala mais comigo e o guarda-roupas continua vazio. Já estou de saco cheio desse lugar. Quando me perguntam eu respondo o que eles querem e pronto, em dois dias estou liberado.
Aqui fora tudo é estranho. As pessoas são estranhas, o mundo é estranho. Não sei se fico perdido nesse caos ou se volto para meu cubículo alegando ser Napoleão.

- Um cigarro e uma cerveja.

Pelo menos ainda posso tentar me matar. Não, não estou falando em me jogar da ponte ou dar um tiro na cabeça. Isso é coisa de desesperados que viram muito mais do que um homem pode ver. Eu só vi um pouco e não estou com pressa de morrer, eu tento me matar aos poucos. Eu me puno por não conseguir viver da forma que se deve. Eu bebo para ter momentos de alegria e esquecimento e o cigarro me acalma. Suicídio. Suicídio à prazo. Só para os que viram pouco, ou os que ainda tem um resto de sanidade. Se é que se pode chamar isso de algo são.
Por sorte, sempre tem alguém querendo conversar num bar:

- Ei! Tudo bem?
- Ahan...
- Você é daqui?
- Não, eu sou Napoleão...
- Hahahah, você é engraçado cara.
- Você não faz idéia o quanto...

Está tão bêbado e perdido quanto eu. Diz que a esposa o deixou por outro e que o patrão está ameaçando despedi-lo. Oh merda, as pessoas só querem ser ouvidas. E então eu ouço. Não preciso dar conselhos, porque as pessoas já sabem o que querem ouvir e elas mesmas dizem isso, você só tem que concordar.

- Então, vou trabalhar com esse meu primo e mandar meu patrão para o inferno, afinal de contas o importante é ter um dinheirinho ali todo o mês para gastar no bar não é mesmo? E daí que é só metade do que ganho? É só comer um pouco menos, to precisando de uma dieta mesmo...

Suicidas à prazo não desistem do seu suicídio por nada nesse mundo, é o que os guia, é o que os faz levantar da cama todo dia pela manhã para trabalhar. É como se deitar numa cama de espinhos durante o dia para comprar um analgésico de noite.

- Mas e você? O que está fazendo aqui?
- Tô tentando me matar...
- Hahahah, você é louco cara!
- É, eu sei...
- Mas sério, qual a sua história?
- Um dia eu acordei e me perguntei porque eu ia me levantar.
- E...
- Bom, eu não encontrei um bom motivo.
- Ser despedido não é um bom motivo?
- Não
- Pagar as contas?
- Não. Beber?
- Beber não é um motivo para se levantar, é um motivo para continuar vivo.
- E a sua esposa?
- Eu daria minha vida por aquela desgraçada.
- E o que ela faria com sua vida?
- Sei lá porra! Me colocaria pra trabalhar pra pagar os luxos dela! Hahahah.
- Um grande amor é um bom motivo para se levantar pela manhã...
- É sim.
- Mas sabe, não encontrei um bom motivo para EU me levantar pela manhã, na verdade eu senti que já não tinha importância para mim mesmo.
- Sei como é, sem ela agora estou perdido. Não consigo fazer mais nada porque nunca pensei em mim eu acho...
- Pois é, o problema é que não aceito que alguém faça isso por mim, o que seria o normal, e então eu virei Napoleão.
- E como é isso?
- É chato, no começo você quer crescer e comer como o mofo, mas daí você percebe que nada muda e que você está sem janelas...
- Sem janelas não é bom...
- Sim sim, mas ainda fica pior, tem um chão que está sempre empoeirado e não há nada para se fazer.
- Então porque você não limpou o chão?
- Para que eu limparia?
- Por que você não estava fazendo nada?
- E isso é motivo para se fazer alguma coisa?

Silêncio.
Bêbados de mais. Filosofia barata de bar.
Começo a caminhar para casa, terei que encarar meus familiares depois desse tempo todo. Me envergonho de ter virado Napoleão, mas já estava sem forças, ainda estou. Mas acho que agüento. Eu tenho que agüentar.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fluxo-Floema


Eu queria tanto me encontrar, descobrir quem de fato eu sou. Eu mudo tanto. O que eu sou? Sou o que fui ontem? Ou aquilo que sou hoje? Talvez eu seja aquilo que serei amanhã, o que significa que de fato eu nunca fui. Talvez eu seja todos, talvez não seja ninguém. Quem sabe eu sou o amor que senti por ela ou o ódio que tenho de mim? A minha alma é tudo, é o leitor destas linhas. É a digestão de tudo e de todos que passaram pela minha vida. Sou Imperador e mendigo


Eu quero ser você leitor, mas você é tão diferente. Não quero ser diferente, eu tenho medo. Tenho medo de mudar (apesar disso acontecer o tempo todo), de não mais me reconhecer no espelho. Tenho medo de não ser mais eu. Eu tenho medo, acima de tudo, do seu julgamento. E se eu não for mais eu, sou alguém? Quem? Você? Não, já falei que não quero. Eu quero ser menos.


Eu quero ser... um rato, a vida do rato é tão mais tranquila. Andar por ai sendo rato... assustando os outros. O mundo me assusta tanto, agora eu quero dar o troco. Sujo como um rato, feio como um rato, miserável como um rato, pensando bem já não me falta muito. Não sendo somente rato, eu sou totalmente rato. Tão rato como ela é minha, tão rato como a crença que tenho em Deus.


Talvez Deus seja um rato, um rato que eu matei a livradas. Um rato que matei dentro de mim por inanição de fé. Me apavora ter um rato morto barbudo, peludo e dilacerado na minha frente... morto. Quanta heresia, Deus... Heresia...? Se Deus não tem cara, eu posso imaginá-lo como eu quiser. Pra mim, Deus é um rato de longas barbas brancas e ponto. E eu sou a imagem e semelhança de Deus.


Logo eu que me julgava pronto pra Deus, não estou. Ninguém está. Não a transcendência capaz de alcançar o inexistente nem a minha imagem de Deus rato. Eu matei Deus matando a mim mesmo. Ou será que inventei Deus? Será que eu me inventei? Será que, por ser covarde, inventei a morte? Não, isso seria demais para um rato (será que os ratos criam os seus próprios deuses?).


O amor que senti por ela é um amor rato. Amo a costela de um rato. Amo um sonho de rato: um queijo qualquer, por mais improvável que pareça. Sonhos são improváveis, por isso são sonhos e não realidade. Todo mundo sonha. Alguns querem queijo, outros império. Eu quero o universo. Quero ser o Deus rato deste universo rato. Eu a quero. Ela que é tão linda que me faz sentir humano, que faz Deus se sentir DEUS, O CRIADOR. Tão linda que apenas o silêncio pode homenageá-la.


Amo a figura de alguem que é ela ou a figura que eu acredito ser ela, mas que não é. O que pode ser mais emocionante do que se descobrir rato? Descobrir que se ama a uma rata? Vê-la passar rata e não poder gritar? Estar a passos da vida que julgo perfeita e saber que simplesmente eu posso nunca alcançá-la?



Para a vida perfeita, talvez tenha que matar um rato por dia ou um DEUS por dia. Talvez eu tenha que cometer um sacrifício por dia e isso resulte na minha morte. Talvez eu tenha que conviver com o meu caos interior. Talvez eu ainda tenha que viver com o caos dos outros. Talvez esse seja meu papel na sociedade (Eu tenho um papel na sociedade?). E qual seria o papel dos ratos na sociedade? Talvez ser rato seja tão complexo quanto ser humano, talvez não.


Quer saber a verdade? Eu tenho nojo de rato.


sábado, 27 de novembro de 2010

O Dia Mais Importante da Minha Vida



Hoje é o dia mais importante da minha vida. Sim, pelo menos até agora, não existiu nada semelhante em toda a minha existência. Durante um ano, dediquei horas e mais horas só para que tudo desse certo nesse momento. Sacrifiquei parte de minha juventude. Festas, mulheres, amigos... Deixei um pouco disso tudo para trás, só para que eu pudesse viver esse dia. E ele finalmente chegou.
Hoje, é o tudo ou nada. Toda a preparação vai se resumir a alguns instantes. Acordarei cedo, colocarei a melhor roupa. Vou me alimentar bem e ficar bem relaxado.
Esse ano inteiro me dediquei a tornar tudo melhor. Fui um perfeccionista.
Hoje, eu vou pedir a mulher que eu amo em casamento.Vou amá-la e mimá-la e amá-la, do amanhacer até o almoço. Então, com um frio no estômago, pedirei com a voz ensaiada, mas tremida, para que ela seja eternamente minha.
Se a resposta de 10 segundos for negativa, vai ser uma dor imensa. Ela vai arrancar de mim o equilibrio e gritos de dor. Vai rasgar meu peito e meu rosto de sangue e lágrimas. Ela, é tudo o que eu quero.
Mas ela nunca vai tirar de mim o que eu já vivi. Todo o ano de preparação, o suor transmutado em ouro, a insônia em poema. A angústia do dia anterior em amor. Muito amor.
Mesmo que nunca mais a veja, eu tenho certeza que valeu a pena
Se ela disser não, será um dia de dor que me esquecerei. Mas um ano de muito amor, que estará sempre marcado em minha memória.
É confuso, eu sei. Mas assim é a mente humana. Capaz de contestar até a si mesma. Certezas? Tenho poucas. Uma delas é que eu vivi. Amei, sofri, chorei. E só eu sei, o quanto a vida me deu.
Como dizia o poeta:
"Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem
sofreu..."
E cá entre nós. Na lógica do poeta, ninguém sabe mais da minha vida, do que eu.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quem escreveu este texto?


Sempre tive curiosidade a respeito do processo criativo. O que leva uma pessoa a escrever algo? O que é inspiração? Até que ponto o que escrevi é realmente meu? E ate onde os meus textos são apenas frutos de tudo que vi, li e vivi, não sendo assim inteiramente meus?


O processo criativo para mim não é um processo, é um ato. Eu sinto que os meus textos, se é que posso chamá-los de meus, vêm praticamente prontos até mim com começo meio e fim. Acho que posso chamar isso de criatividade, aquilo que nos presenteia com um texto pronto às vezes e outras, simplesmente, insiste em não aparecer.


Um texto é quase humano, tem vontade própria, não permite que eu me intrometa no seu destino, às vezes parece ser meu filho. Sempre me lembro de uma história que ouvi certa vez a respeito de um crítico literário do Sul que decide escrever um livro que tivesse um final feliz. Escrevendo o final do livro, a sua personagem principal comete suicídio. Ele não gosta desse final e tenta reescrevê-lo várias vezes e de várias formas, não obtendo sucesso. A personagem sempre, de uma forma ou de outra, acabava se matando no final. Ele depois de tantas tentativas frustradas desiste, não há como lutar contra a natureza dos textos. Eles são vivos, sabem o que querem.


Às vezes, eu tenho certeza que os textos não são meus, me vêm praticamente prontos, quase psicografados. Ao produzi-los começo a pensar a respeito de um monte de coisas sobre as quais eu nunca tinha pensado antes, apesar de estarem o tempo todo dentro de mim. Escrever é abrir uma oportunidade quase única de diálogo com o meu interior. Ele que quase sempre vive mudo e quando fala me emudece e me muda. Dessa forma, eu muitas vezes sinto que não sou eu o responsável por escrever as minhas coisas, são elas que me escrevem.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Traduzindo Economês ou Um Pouco de Realidade ou Austeridade é Coisa de Pobre


O capitalismo, como qualquer outro sistema político que já existiu na prática, consiste de um pequeno grupo que domina o resto das pessoas. Com o surgimento de uma alternativa, os capitalistas(ricos) do mundo passaram a ceder concessões aos dominados a fim de evitar a queda do seu domínio. Só que o capitalismo tem outra característica interessante. As crises cíclicas.
A ideia é simples. Se o rico investir o dinheiro na economia, o dinheiro se multiplica. Sim. Simples assim. Pergunte a qualquer um o que faria se ganhasse na Mega-Sena. "Deixava rendendo no banco". Essa é a ideia. Investir para multiplicar "magicamente" o dinheiro. Pois bem, de tempos em tempos a mágica falha. Mas existe uma premissa do capitalismo que não se pode ignorar, e é exatamente a premissa da dominância.
Explico: Como a maior parte do capital(cerca de 80%), financeiro ou não, está nas mãos do grupo dominante, todo o resto da população depende dele para sobreviver. Pois se esse capital não for reinvestido para gerar empregos e pagar salários a população NÃO TEM outro meio de sobreviver. Sim. Você depende deles para sobreviver.

Portanto, a lógica é simples. Se o sistema está em crise, se está faltando dinheiro, se não conseguimos mais criar empregos, então, como disse hoje Delfim Neto, ex-ministro da fazenda dos militares, na Folha de São Paulo: "apertem os cintos". E ele não está se dirigindo aos ricos que tem lanchas e mansões na Côte D'azur. Ele está se referindo as 90% das pessoas que trabalham. Você vai pagar mais impostos para bancar o rombo. Você vai perder direitos trabalhistas. Você pode até perder o seu ÚNICO meio de sustento.
Bom, mas essas crises passam. Achamos que a culpa de tudo é do governo e voltamos a acreditar na mágica de novo. É o que eles chamam de "volta da confiabilidade nas instituições financeiras". E o circo recomeça. Nem nos damos conta de que quem pagou a irresponsabilidade fomos nós."Vida que segue", diria o saudoso João Saldanha.
Mas não é isso que está acontecendo dessa vez. Parece que todas as crises anteriores foram deixando um pouquinho de déficit nas maiores economias capitalistas do mundo, que dessa vez insistem em não se recuperar. Então começa a austeridade. Com quem trabalha é claro.

Enfim, muitos dirão que o capitalismo é o melhor que nós temos por enquanto. Mas será que já não está na hora de debater alternativas? Será que não devíamos procurar talvez um capitalismo mais humano, mais igual? Até quando você, que tem mais de 90% de chance de ser um dos que aperta os cintos quando isso acontece, vai bancar aquela mansão linda na Côte D'azur, mas se esquecer disso depois que puder comprar o novo iPhone?
Fico tentando encontrar o ponto histórico onde deixamos de fazer escambo como nossos índios fizeram com os portugueses. Mas não consigo encontrar.