Hoje eu vi um dragão. Sim meus amigos, essas feras mitológicas ainda existem. E o termo "fera" se encaixa muito bem aqui. Esses seres alados que aterrorizavam vilarejos pela Ásia e Europa, acreditem ou não, ainda existem hoje, aterrozirando transeuntes do metrô paulista. Pior! Andam por aí pelas ruas como se fossem pessoas normais. Esses anciões, melhor, velhacos de nossa história, agora se transfiguram em seres humanos e agem como tal. Na correria dos metrôs e das avenidas e passarelas não é possível notá-los. Diante de tal ameaça ao mesmo tempo perigosa e furtiva, decidi contar-lhes algumas manhas para desnudar tais seres de sua máscara.
O primeiro passo é se aproximar do suspeito, com muita simpatia e olhares despretensiosos. Em sua posição de criaturas milenares, e portanto dotadas de conhecimentos tais, é recomendado lidar com eles da forma mais humilde possível. Um bom lugar para se encontrar um possível ser draconico(?) é perambular pela Moema ou pelo Jardins, pois aí os tais fazem seus lares. Em suas incríveis e gigantescas cavernas eles guardam os resultados de seus espólios. Ali também que cultivam seus pequenos dragõezinhos que, assim que tiverem idade para ganhar o mundo e começar a espoliar também, são mandados para uma espécie de rito de passagem. A grande parte é enviada para o bairro japonês, aonde vão se degladiar contra outros pequenos dragões em formação, se tornando dragões mais fortes, sábios e bem preparados no futuro. Foi neste lugar que encontrei meu espécime.
Diante da figura mitológica transfigurada não pude disfarçar meu descaso diante da descrença na existência da criatura, e aventureiro que sou, comecei a contar causos de minhas desventuras em terras estranhas. É nesse momento que o leitor amigo deve ficar atento aos sinais. Diante da ameaça a sua superioridade natural a criatura começa a produzir um veneno em suas glândulas salivares para se defender do inimigo. Desculpem se perco tempo com explicações demasiado detalhistas de fisiologia, mas ainda sinto os efeitos do temeroso encontro. Enfim, o fato é que tomado de um instinto quase que natural, aprimorado durante anos em seu feroz e desumano rito de passagem, o animal(?) tem a necessidade de se livrar do veneno. Veja bem que não estamos aqui tentando denegrir a fera mitológica. É um instinto, que o meio, por seleção natural, impôs a pobre criatura. Divago mais uma vez. Façamos uma pausa.
O que quero dizer é que ameaçada sua superioridade draconica(?) ele começará a deixar o veneno escapar por entre seus dentes. Sua língua bifurcada de serpente(todos sabem que a língua dos dragões é assim certo?) vai começar a sibilar na tentativa de destruir seu oponente. Esse é o momento, caro leitor, de manter-se firme. Pois basta um pequeno vacilo, um pingo de humanidade e o referido monstro irá destruí-lo. Não, não vai devorá-lo ou cuspir fogo. Isso é coisa do passado. Os dragões de hoje, transfigurados e evoluídos, destroem o que você tem de melhor. Seu poderoso veneno, uma vez em contato com o coração de uma pessoa comum tem o poder de transformar a pessoa em um deles. Não. Não são vampiros bonitinhos de um filme de Holywood. São dragões, porra.
Nesse momento o leitor deve se manter calmo e continuar agindo normalmente, deixando que o veneno siga o seu curso natural no corpo, e terminar como todo outro veneno que você ingere. No vaso sanitário. Pois diante da resistência do seu opositor(?) o ser velhaco(ancião?) irá produzir mais e mais veneno, mostrando finalmente o seu verdadeiro ser. O próprio veneno corrói a falsa pele de cordeiro(gente?) e mostra a todos o que aquele ser realmente é. Não que os outros dragões se importem, mas isso os deixa realmente irritados. E não tem nada mais divertido que ver o desespero desses seres, com o próprio veneno.
Mas não há maneira de derrotá-los? Perguntará o desavisado leitor. E já aviso que não! Não vale a pena nem tentar! Pelo menos foi o que um sujeito bigodudo me contou. Disse que por baixo da pele de gente(cordeiro?) existem escamas, com inscrições numa linga arcana que significam "não pode". Achei bem apropriado, e pretendo averiguar isso da próxima vez que esbarrar com um deles.
O caso é que, ao mesmo tempo sobrevivente e bardo que sou, resolvi alertar meus amigos mais próximos para o perigo que aqui existe. E que, não se atemorizem demais. Apesar dos perigos supracitados, desnudados esses seres de sua frágil casca o que sobra é um ser rídiculo, que parece um calango de minha terra, os quais nos divertiam com sua fuga desesperada dos meninos que jogavam bola na rua.

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