quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mr. K vai ao Hospício


Preso em um cubículo. As paredes sem janelas e tudo que há no quarto é uma cama e um guarda-roupa de duas portas. O chão levemente empoeirado,  tudo cheira a mofo. Maldição, eles acham que estou louco. Eu acho que estou louco. Todo dia me dão remédios para me animar, mas não há nada para fazer por aqui, então eu continuo desanimado. Parece que estou no fundo escuro de uma caverna e a cada dia que passa a luz que me indica a saída fica cada vez mais fraca, e todos os dias eu penso no trabalho que vou ter para voltar e então eu me sento. Eu me sento na beirada da cama e o chão continua empoeirado, eu abro o guarda-roupa vazio e o chão continua empoeirado. A única coisa que cresce por aqui é o mofo, e até mesmo ele, às vezes, parece triste. Eu me levanto e pego meu remédio, mas tudo parece igual. As pessoas me fazem perguntas para as quais eu não tenho respostas. Durante toda minha vida procurei aprender as coisas e não ter resposta para algo realmente me incomoda. Eu me reviro no colchão e converso com o mofo mas nós não chegamos a conclusão nenhuma. O mofo diz:

- O mais importante é crescer rapaz!
- Eu acho que já estou muito velho para crescer...
- Bom, comer também é importante...

O mofo não é uma boa companhia, ele só fica ali, se aproveitando da minha falta de janelas para crescer e comer.

- Por que você faz isso?

Silêncio.
Bom, talvez ele também não tenha uma resposta. Os dias então se arrastam, o mofo não fala mais comigo e o guarda-roupas continua vazio. Já estou de saco cheio desse lugar. Quando me perguntam eu respondo o que eles querem e pronto, em dois dias estou liberado.
Aqui fora tudo é estranho. As pessoas são estranhas, o mundo é estranho. Não sei se fico perdido nesse caos ou se volto para meu cubículo alegando ser Napoleão.

- Um cigarro e uma cerveja.

Pelo menos ainda posso tentar me matar. Não, não estou falando em me jogar da ponte ou dar um tiro na cabeça. Isso é coisa de desesperados que viram muito mais do que um homem pode ver. Eu só vi um pouco e não estou com pressa de morrer, eu tento me matar aos poucos. Eu me puno por não conseguir viver da forma que se deve. Eu bebo para ter momentos de alegria e esquecimento e o cigarro me acalma. Suicídio. Suicídio à prazo. Só para os que viram pouco, ou os que ainda tem um resto de sanidade. Se é que se pode chamar isso de algo são.
Por sorte, sempre tem alguém querendo conversar num bar:

- Ei! Tudo bem?
- Ahan...
- Você é daqui?
- Não, eu sou Napoleão...
- Hahahah, você é engraçado cara.
- Você não faz idéia o quanto...

Está tão bêbado e perdido quanto eu. Diz que a esposa o deixou por outro e que o patrão está ameaçando despedi-lo. Oh merda, as pessoas só querem ser ouvidas. E então eu ouço. Não preciso dar conselhos, porque as pessoas já sabem o que querem ouvir e elas mesmas dizem isso, você só tem que concordar.

- Então, vou trabalhar com esse meu primo e mandar meu patrão para o inferno, afinal de contas o importante é ter um dinheirinho ali todo o mês para gastar no bar não é mesmo? E daí que é só metade do que ganho? É só comer um pouco menos, to precisando de uma dieta mesmo...

Suicidas à prazo não desistem do seu suicídio por nada nesse mundo, é o que os guia, é o que os faz levantar da cama todo dia pela manhã para trabalhar. É como se deitar numa cama de espinhos durante o dia para comprar um analgésico de noite.

- Mas e você? O que está fazendo aqui?
- Tô tentando me matar...
- Hahahah, você é louco cara!
- É, eu sei...
- Mas sério, qual a sua história?
- Um dia eu acordei e me perguntei porque eu ia me levantar.
- E...
- Bom, eu não encontrei um bom motivo.
- Ser despedido não é um bom motivo?
- Não
- Pagar as contas?
- Não. Beber?
- Beber não é um motivo para se levantar, é um motivo para continuar vivo.
- E a sua esposa?
- Eu daria minha vida por aquela desgraçada.
- E o que ela faria com sua vida?
- Sei lá porra! Me colocaria pra trabalhar pra pagar os luxos dela! Hahahah.
- Um grande amor é um bom motivo para se levantar pela manhã...
- É sim.
- Mas sabe, não encontrei um bom motivo para EU me levantar pela manhã, na verdade eu senti que já não tinha importância para mim mesmo.
- Sei como é, sem ela agora estou perdido. Não consigo fazer mais nada porque nunca pensei em mim eu acho...
- Pois é, o problema é que não aceito que alguém faça isso por mim, o que seria o normal, e então eu virei Napoleão.
- E como é isso?
- É chato, no começo você quer crescer e comer como o mofo, mas daí você percebe que nada muda e que você está sem janelas...
- Sem janelas não é bom...
- Sim sim, mas ainda fica pior, tem um chão que está sempre empoeirado e não há nada para se fazer.
- Então porque você não limpou o chão?
- Para que eu limparia?
- Por que você não estava fazendo nada?
- E isso é motivo para se fazer alguma coisa?

Silêncio.
Bêbados de mais. Filosofia barata de bar.
Começo a caminhar para casa, terei que encarar meus familiares depois desse tempo todo. Me envergonho de ter virado Napoleão, mas já estava sem forças, ainda estou. Mas acho que agüento. Eu tenho que agüentar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário